É costume entre alguns grupos indígenas, que partes dos alimentos sejam
reservadas aos espíritos. Essa prática não é exclusiva dos índios. As
comidas de santo oferecidas aos orixás nas cerimônias de religiões
afro-brasileiras, e o costume de famílias orientais - mais antigas - de
colocar um pratinho de arroz nos altares, para os familiares que já
morreram; também representam, a união entre os espíritos e os vivos.
Esses alimentos são porções especiais - não qualquer parte - e
preparadas conforme regras estritas, usualmente pelos pajés e guias
espirituais.
Os índios
Mundurucu, do Pará, acreditam que os
espíritos de seus antepassados aparecem na Casa onde guardam suas
flautas sagradas. Em determinadas festas, os índios levam mingau de
mandioca para essa casa, o que garante a proteção dos espíritos para as
colheitas. Entre os índios Suyá, o pajé prepara um
prato com as partes nobres da carne das antas que são caçadas, e também
leva a comida para o local onde guardam seus instrumentos musicais.
É comum que esses alimentos reservados aos espíritos visem acalmar
possíveis reações raivosas das almas dos animais abatidos. Essa crença é
comum a diversos grupos indígenas. Algumas caças exigem melhores
cuidados em virtude de sua tradição mágica. O veado, por exemplo, é
considerado por várias etnias, como um ser humano encantado, e comer sua
carne sem passar pelos rituais determinados, é um risco de praticar
antropofagia.
O antropólogo Darcy Ribeiro levantou a hipótese, enquanto conviveu com os índios Urubu-Kaapor, que os procedimentos de descarnar os veados abatidos em caçada eram semelhantes aos ritos antropofágicos dos antigos índios Tupi.
Os Kaapor
contam um mito sobre Anhanga-apar, um caçador que sempre chegava à aldeia com costelas e traseiro de anta.
Para saber mais:
- Diários Índios: os Urubu-Kaapor ; de Darcy Ribeiro
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