O escritor paraense Abguar Bastos realizou uma extensa
pesquisa sobre a preferência alimentar de vários grupos indígenas. Para
descrever o resultado de seus estudos ele usou o termo "pantofagia", ou seja, o ato de comer de tudo.
Ele propôs uma divisão dos alimentos consumidos pelos índios em certas categorias: de resguardo, interditos, compensatórios, privativos e sagrados.
Os alimentos de resguardo
são
aqueles incentivados ou proibidos de serem consumidos durante um
período ligado a um rito de passagem. Os alimentos probidos, se forem
absorvidos durante esse período, podem trazer consequências graves,
tanto para a pessoa que os comeu quanto para seus parentes próximos.
Entre os índios Bororo, do Mato Grosso, as mães que davam à luz não comiam carne de tatu nem de tartaruga, senão seus bebês podiam ficar raquíticos. Entre os Urubu-Kaapor, do Maranhão,
as meninas que estão prestes a menstruar pela primeira vez tomam uma
sopa de aipim - "para esquentar a vagina" - e apenas podem comer
tartaruga-branca, os peixes mandi e aracu, e chibé (farinha seca diluída
na água).
Os alimentos interditos
são aqueles proibidos a toda a comunidade indígena, como fêmeas grávidas ou animais considerados mágicos. Os Kaingang, do sul do Brasil, e os Rikbaktsa, do norte do Mato Grosso,
não comem tamanduás. Os Kaingang dizem que são gratos ao tamanduá, que
ensinou alguns cantos e danças para os índios. Entre outros exemplos: os
índios Xikrin (do Pará) não comem o peixe jaú, os Karajá (do Tocantins)
não comem tatu, os Tapirapé (do Mato Grosso) não comem preguiça... É
comum que os índios comam a carne de macacos, mas há sempre alguma
espécie que não é consumida. Geralmente o motivo é - segundo as lendas -
que aquela espécie já foi um humano que se transformou em tempos
passados.
Alimentos recompensatórios
são geralmente reservados aos homens que realizam alguma atividade muito trabalhosa. Era habitual entre os índios Bakairi, do Mato Grosso, que os homens ganhassem alimentos de todos da aldeia, antes de partirem para a caça. Entre os índios Krahò, do Tocantins,
persiste um costume realizado de tempos em tempos, que fortalece a
amizade entre as famílias: todos os homens saem para a mata em busca de
um alimento. Quando voltam à aldeia, oferecem esse alimento a uma mulher
que não seja sua própria esposa, que retribui a gentileza com uma
comida preparada por ela própria. Uma espécie de troca de presentes.
Os alimentos privativos
são aqueles reservados a certos indivíduos ou grupos. Entre os índios Suyá, do Mato Grosso, apenas os homens podem comer os miúdos da anta. Também só os homens, entre os Rikbaktsa, comem a cabeça de macacos e porcos-do-mato.
Os alimentos sagrados ( "sagrados"
do ponto de visrta do pesquisador Abguar Bastos) são os alimentos que
sofrem uma influência espiritual, antes de serem consumidos. Por
exemplo: os pajés dos índios Marubo, do sudoeste do
Amazonas, usam o canto para curar as doenças. Há casos em que esses
pajés cantam sobre um pote de mingau, que depois é oferecido ao índio
doente. Isso ocorre também entre os índios Baniwa, do norte do Amazonas.
Durante a festa Kariana,
um rito de passagem feminino, os pajés benzem e jogam fumaça sobre a
comida que será consumida pelas meninas;
normalmente beiju com molho de pimenta, peixe cozido e uma cabeça de peixe. Entre os índios Wanana, do alto Rio Negro - noroeste amazônico, os pajés benzem também o leite materno que é oferecido às crianças durante a cerimônia de batismo.
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